quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Swiss Made: O incrível padrão de qualidade Suíço e o Trabalho:


Eu sou formada em Letras, Português e Inglês, no Brasil, mas trabalhei nas mais diversas áreas, sempre entrando na empresa e crescendo dentro das próprias organizações. Em meu último trabalho registrado no Brasil comecei como recepcionista bilíngue e fui promovida a assistente de diretoria em uma multinacional italiana. Sempre associei o tempo ao dinheiro, então se tinha tempo disponível procurava fazer horas extras, serviços esporádicos, etc.

Na vinda do Brasil para a Suíça eu estava preparada para fazer a mesma linha crescente. Imaginava que "tudo bem" se não encontrasse um trabalho no padrão do que eu tinha no Brasil, porque eu poderia começar em um trabalho e ir galgando os degraus até ser promovida, como sempre havia feito. É sobre isso que eu quero falar, especialmente aos meus colegas brasileiros que ainda estão estudando e / ou têm o sonho de morar no exterior.

O que eu aprendi (e estou aprendendo a cada dia) é sobre a importância de dar, na medida do possível, um reset nas nossas configurações, ideias pré-formadas, construída a partir de uma realidade social e cultural diferente. Eu faria uma analogia com o aprendizado da língua alemã para um falante nativo de língua portuguesa: uma estrutura completamente diferente na qual, para se falar a língua alemã, deve-se compreender como esta funciona em sua estrutura e aprender a pensar a partir desse novo padrão. 

Pois bem, aqui na Suíça há um orgulho muito grande em tudo que é Swiss Made. Os produtos estampam isso, até porque as leis de produção aqui costumam ser rigorosas e não compactuam, por exemplo, com a exploração animal para o lucro ser maior. É como um selo de confiança;

Há muito tempo já que eu vejo as vagas de trabalho aqui, me tornei expert em alemão e francês, além do italiano, quando no gênero Vagas de Trabalho. Eu já encontrei de tudo, desde lavador de pratos até assistente pessoal. O ponto é que mesmo vagas de lavadores de prato exigem experiência em lavar pratos. O suíço valoriza muito a indicação, a experiência e parece haver uma tradição aqui de você se tornar especialista em algo, eu diria que essa é uma das características principais do povo suíço. Eles são perfeccionistas, exigentes e muito críticos. Veja bem, isso não é algo negativo (tanto é que o padrão Swiss Made é super bem visto no mundo), mas é algo que os diferencia de nós brasileiros.

Considero que o povo brasileiro é mais flexível, atencioso, gentil e próximo. Ilustro essa situação com algo que aconteceu com o meu esposo aqui: ele foi na Die Post (o correio e lotérica daqui) fazer um depósito. Ele ainda está aprendendo a língua alemã (é nível B1 intro) e não lembrava com exatidão qual a palavra para saque e qual a palavra para depósito, acabou confundindo as duas. Ele sorriu, fez gestos e perguntou para a atendente a diferença através de gestos. A moça, analiso eu, pode ter se sentido ofendida com a pergunta e o fato é que ela ficou nervosa e foi até ríspida porque ele deveria saber o que ele queria, se era sacar ou depositar e não pedir para ela ensinar. Ela é a atendente que faz depósitos e não professora de língua alemã.

Quando a gente chegou aqui isso nos chateava bastante, mas posso dizer hoje que aprendi muito e hoje entendo o porque isso acontece. O suíço é extremamente profissional e para o que ele é contratado a fazer ele faz e com perfeição. Mas cada um deve fazer o trabalho que lhe cabe, é um tipo de lógica (assim como o funcionamento de uma língua) que é particular e não pode ser julgado, sob risco de incorrer em erros. É óbvio que existem diferentes tipos de personalidades e que tem suíços mais gentis que esse exemplo. Mas a minha intenção ao escrever esse blog era a de passar aos leitores as coisas que eu gostaria de ter lido antes de vir para cá, sem filtros.

Sobre o trabalho, para quem está buscando, digo que ter contatos é tudo aqui. Contatos, carta de indicação e experiência na área em que se deseja trabalhar. Ter cursos é super importante, mas ATENÇÃO: eles levam muito em consideração as notas que você tirou no seu curso, na sua faculdade, pós-graduação, etc. Eles, ao contratar você, esperam que você saiba fazer o seu trabalho e que não será necessário lhe ensinar nada. O positivo é que ninguém cuidará da sua vida, investigará o que você faz ou deixa de fazer, ou forçará amizade. Cada um fica na sua mesmo. A parte que pode conter aspectos negativos é que justamente porque ninguém vai querer saber de você, eles também não oferecerão ajuda, do tipo que a gente vê no Brasil "olha se você precisar de algo, qualquer coisa mesmo, conte comigo"...

No Brasil eu nunca tive de mostrar minhas notas para conseguir um trabalho, inclusive vejo muitos jovens (o que obviamente não são todos) que vem para a Europa fazer Ciências sem Fronteiras e acabam se matriculando em poucas matérias para ter a oportunidade de viajar e aproveitar mais. Se posso dar uma dica àqueles jovens que pretendem trabalhar AQUI na europa é essa: foque e dedique-se muito aos estudos e tenha boas avaliações. Faça contato com os professores, se inscreva em projetos porque aqui isso é muito visto. As melhores vagas ficam para quem tem as melhores notas e contatos. Esse inclusive é um ponto que eu admiro nos suíços, a dedicação aos estudos.

Então quem quer vir para cá, gente, estude, procure ir se adaptando ainda no Brasil. Se eu tivesse lido esse meu post anos atrás eu teria traçado outros planos para vir para cá.

É bom saber que eu tenho muito a aprender com essa cultura, assim como tenho pontos que poderei ensinar e fico feliz por isso. Se eu posso dizer algo para resumir esse tempo que eu estou aqui e o maior aprendizado seria, com certeza, o "não se deixar afetar". Isso que é o legal, abrir a cabeça e ver que existem outras formas de pensar, outras oportunidades, outras perspectivas, outras formas de levar a vida.

No próximo post falarei mais sobre o Trabalho aqui.

Imagem de Luzern, à noite:















terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A vida na Suíça... Imigrar para a Suíça... Legalmente ou Ilegalmente?

Outro dia eu estava no Facebook, em um destes grupos de Brasileiros na Suíça e vi um post sobre imigração para a Suíça. 
Eu que estou aqui porque vim casada com um cidadão suíço e registrei meu casamento no consulado Suíço no Brasil bem antes de sair, solicitei o visto, enviei todas as documentações dei o meu ponto de vista no post pragmático. Em seguida uma moça respondeu ao meu comentário dizendo algo como "Pode vir sim, vem com fé em Deus que tudo vai dar certo. Não dê bola para a oposição"... 

Eu virei para o meu esposo na mesma hora e pensei, será que estou errada, que fui uma pessoa negativa com o autor do post? Ao passo que refletindo cheguei à conclusão de que não, eu fiz com a pessoa o que eu gostaria que alguém tivesse feito comigo quando eu estava prestes a vir. Meu esposo, embora seja suíço, viveu a vida inteira no Brasil e sua família também se mudou para lá. Assim nós dois viemos para cá sem conhecidos, com a cara e a coragem - embora, naturalmente, o aspecto legal estava de certa forma garantido.

Muitas pessoas têm esse interesse de morar aqui e eu só posso falar sobre o que vivi e do que conheço. O ponto é que para brasileiros imigrarem para cá existem caminhos sim. O mais óbvio é o visto de reagrupamento familiar, necessário se casar com um cidadão (ou cidadã) suíço (a), em seguida o visto de trabalho o qual pode ser conseguido em uma das empresas multinacionais ou empresas culturalmente mais abertas. Se você for uma pessoa com um know-how interessante para a empresa, eles te dão o visto de trabalho (a explicação para o governo é feita por eles e acredite ela existe, pois a empresa precisa justificar o porque de preterir um cidadão suíço em detrimento de um estrangeiro) e aí você consegue o visto de residência. 
Esses são os caminhos que eu vou falar neste post. 

O caso que eu citei anteriormente de brasileiros que tem interesse em viver aqui ilegalmente eu 
considero muito singular. Primeiro, a Suíça é um país com uma cultura absurdamente diferente da nossa. Aqui praticamente não existe pobreza, desigualdade social, então o Suíço não tem essa "caridade natural" que o brasileiro tem. Para ilustrar isso, note que na Suíça não existem cães de rua!!!!! Nesse sentido eu sofri bastante. A cultura deles é diferente da nossa, nem melhor nem pior, mas diferente. É mais agradável em aspectos e menos agradável em outros aspectos. As nossas piadas não são engraçadas aqui (cansei de levar toco por isso), por exemplo.

Voltando à questão da imigração ilegal, a pessoa queria vir disposta a tudo, lavar louça, limpar chão, não importava. Eu sei que quem tem contatos aqui pode ser que consiga gente, mas eu quero expor os aspectos aqui porque minha experiência aqui estando legal já foi um choque, então não consigo imaginar o quão é difícil uma vida ilegal e na minha opinião não vale o risco.
A Suíça eu faço uma analogia com o Google. É incrível, mas eles sabem tudo sobre você. É diferente do Brasil, pois todos os sistemas e órgãos do governos são interligados. Se você aluga uma casa, você é obrigado a ir na Gemeinde (Comuna) e registrar seu endereço. A partir daí todos os orgãos são informados, então no meu caso (como eu cheguei aqui sem que a Suíça houvesse me concedido o visto de residência) a Gemeinde já avisou a escritório de imigração de que havia uma imigrante sem o visto morando aqui. E todos os órgãos do Governo, e mesmo a Organização Cáritas, trabalham dentro do esquema Suíço. Extremamente organizados e exigentes.

Existem pessoas que pagam para cidadãos suíços se casarem com elas e, assim, elas poderão garantir o visto de reagrupamento familiar. No meu caso, o cantão de Ticino, que foi por onde comecei minha vida na Suíça, fez várias exigências e não chegou a me conceder. No cantão de Lucerna, tivemos que responder a um super questionário contando nossa história e comprovar (fotos) que de fato era um relacionamento e um casamento legítimo.  

Para quem tem passaporte europeu a imigração é muito mais fácil, pois a Suíça tem acordos com os países da União Europeia.

De um modo geral, esse meu post é para dar uma contextualização sobre a imigração para cá. Não é um tratado oficial. Envolve a minha experiência, as informações que eu gostaria de ter tido antes de vir para cá (aliás, essa é a missão do Blog) e, talvez o mais importante, a constatação das diferenças entre as culturas Suíça e Brasileira.

São culturas singulares e diferentes.